| condominionainternet:
Como você consegue se manter imparcial nos comentários de
suas companheiras, no Saia Justa (quarta-feira, às 21h30), quando
o tema é política?
Mônica Waldvogel:
A proposta do programa é o confronto de idéias sobre os
temas propostos. Achamos que havia espaço para um debate em que
o pensamento politicamente correto, tão em voga atualmente, pudesse
ser deixado em banho-maria para que o calor do impacto que o noticiário
provoca em nós tenha a chance de fazer as opiniões entrarem
em ebulição. É claro que corremos o risco de ser
mal compreendidas (o que acontece de vez em quando), mas isso é
saudável. Afinal, é nas conversas relaxadas entre amigos
que cai o véu da hipocrisia e podemos falar o que pensamos das
coisas, do mundo. Meu papel, no programa, é também corrigir
informações (ou supri-las) quando a análise ou a
simples discussão parte de algum pressuposto equivocado do ponto
de vista jornalístico. De toda forma, acho que os temas relacionados
a comportamento e vida contemporânea são aqueles em que navegamos
com mais naturalidade.
condominionainternet: Houve
dificuldades em mediar as outras mulheres - Fernanda Young, Rita Lee e
Marisa Orth - no programa?
Mônica Waldvogel:
De forma alguma. É quando todas pensamos diferente, quando divergimos
mais abertamente, que o programa fica interessante. Notamos que o público
vai se identificando com uma ou outra, dependendo do tema, e que tira
muito proveito disso. A única dificuldade que sinto é administrar
o tempo quando a conversa pega fogo. É minha função
obedecer ao ponto eletrônico: chamar o break comercial, mudar a
conversa para o assunto seguinte, chamar algumas das seções
fixas do programa. Constantemente acabo burlando as instruções
para deixar a conversa fluir mais um pouquinho...
condominionainternet: Qual
é a sua avaliação sobre o Fome Zero?
Mônica Waldvogel: Ainda muito cautelosa. É
cedo para fazer críticas, o programa ainda está em gestação.
Claro que estou levando em conta as observações feitas pelos
especialistas que apontaram uma série de problemas na execução
do projeto.
Imagino que o governo esteja fazendo o mesmo e procurando corrigir as
falhas iniciais. Por outro lado, acho que Lula e sua equipe estão
sinceramente empenhados em fazer um programa que dê certo, e não
uma ação cínica de puro e simples marketing. Só
isso já faz aumentar a chance de sucesso do Fome Zero.
condominionainternet: Quais
foram os aspectos positivos e negativos do governo Fernando Henrique (1994-2002)
que você gostaria de destacar?
Mônica Waldvogel:
O maior legado do governo Fernando Henrique foi a prática plena
da democracia. Pode parecer pouco, mas longe disso, precisamos aplaudir.
A história do Brasil não é nenhum exemplo neste campo:
tivemos seguidos golpes de opereta, inúmeras ocasiões em
que a vontade popular, a lei e a constituição foram desrespeitadas
porque grupos de influência se sentiam no direito de impor seus
interesses sobre a Nação. FHC enfrentou crises terríveis,
pressões, episódios constrangedores, mas conseguiu ensinar
ao país que é possível resolver tudo isso sem usar
a força ou extrapolar os limites do poder. Tanto que seu mandato
terminou com a vitória da oposição tão temida
pelos mais conservadores, e isso num clima absolutamente pacífico.
O problema foi a área econômica. Durante o governo FHC, o
modelo econômico que vigorava em praticamente todo o mundo ocidental
privilegiou o setor financeiro e entrou em crise. Pagamos um preço
altíssimo por não termos alternativa, por estarmos alinhados
a essa única corrente. E, pelo andar da carruagem da história,
continuamos na mesma.
condominionainternet: Qual
é o problema mais grave, hoje, no sistema de saúde pública
do país?
Mônica Waldvogel:
Esse assunto é complexo demais. Mas, resumidamente, diria que o
problema da saúde é semelhante ao de todos os outros serviços
que o Estado tem de oferecer ao cidadão: má distribuição
de facilidades, atendimento precário, acesso irregular às
ações de prevenção. Mas sempre lembro que
a clientela dos serviços públicos no Brasil, principalmente
da saúde e da educação, é calculada em dezenas
de milhões de pessoas. Não é fácil, nem barato,
resolver tudo isso. A solução terá de aliar crescimento
econômico, boa gestão dos recursos, e regras muito bem elaboradas
tanto para a aplicação dos orçamentos federal, estadual
e municipal, como para a malversação das verbas. A consciência
da sociedade brasileira é cada vez mais aguda para esses temas
e, por isso, sou esperançosa: melhoramos à medida que o
tempo passa.
condominionainternet: Qual
é a sua opinião sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista?
Mônica Waldvogel:
Acho que o jornalismo é vocação e talento para a
função. Quem já se percebe voltado para essa área
deve, sim, buscar a formação específica e seu diploma.
Mas não se deve descartar o estudioso de outras áreas que
descobre, depois da faculdade, que tem jeito e queda para o jornalismo.
Ele pode perfeitamente aprender as técnicas vivendo o dia-a-dia
de uma redação. Aliás, até os jornalistas
formados só descobrem como é a profissão quando começam
a trabalhar na área. Pela minha experiência, o diploma não
qualifica necessariamente os jornalistas. Uma redação bem
organizada, que se pauta por uma tábua de princípios éticos
e técnicos, é a melhor escola que candidatos à jornalista
podem ter. Indispensável é ter boa formação
cultural, conhecer a língua e saber escrever, ser curioso e interessado
pelas coisas do mundo.
condominionainternet: Você não renovou contrato
com a Rede Record, onde apresentava o telejornal Fala Brasil. Isso pode
ser um sinal de que, após 20 anos de jornalismo, dará prioridade
a novos projetos?
Mônica Waldvogel:
Todo mundo acalenta seus sonhos. O meu é fazer documentários
e espero conseguir realizar alguns projetos nessa área. Não
é, infelizmente, o melhor dos momentos. As emissoras abertas de
televisão e os canais de cabo passam por uma das mais difíceis
crises e será preciso algum tempo até que os ajustes tranqüilizem
o setor. Enquanto isso espero poder, pelo menos, encaminhar algumas idéias.
Procurei me preparar para ter também o meu tempo.
condominionainternet: Antes
das 6h você já estava na emissora para preparar o noticiário.
Como conciliava o trabalho (além da leitura de jornais e revistas,
acesso à Internet, etc.) com a vida em família?
Mônica Waldvogel:
Tudo é sempre muito corrido e estressante. E, para complicar, não
sou lá muito organizada com minhas coisas pessoais. Sou do tipo
que vive fazendo listas de itens a serem cumpridos e se frustra porque
não conseguiu ticar nem a metade. A semana é uma loucura,
família e amigos são sempre mal atendidos de segunda a sexta-feira.
Procuro compensar nos fins de semana. Que jeito?
condominionainternet: Tem
tempo para cuidar da mente e do lado afetivo? O que faz?
Mônica Waldvogel:
Agora que já não acordo de madrugada, procuro começar
o dia com caminhadas e ginástica. O ato de caminhar, para mim,
é dos mais saudáveis em todos os sentidos. Não apenas
por causa das vantagens do exercício, mas porque é um excelente
momento para organizar o pensamento, para chamar as idéias. Funciona
muito bem. Ultimamente, de um ano para cá, tenho tido muitas dificuldades
com o sono (deve ser por causa das listas!). Tenho planos de começar
a fazer yoga para conseguir relaxar.
condominionainternet: O que deixa Mônica Waldvogel
de saia justa?
Mônica Waldvogel:
É alguém me perguntar: 'você se lembra de mim?'.
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